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Sexta-feira, 02 de Outubro de 2026

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Títulos ‘cancelados’? Até onde legado de Guardiola é anulado com veredito do caso City

Há uma pergunta que, a partir de agora, vai acompanhar Pep Guardiola pelo resto da carreira: quanto do que ele construiu no Manchester City pertence a ele, e quanto foi possível porque o clube havia construído uma vantagem financeira sobre os concorrentes de maneira irregular? O questionamento surge depois que a comissão independente responsável pelo …

Notícias de Porto Velho
Por Notícias de Porto Velho
Títulos ‘cancelados’? Até onde legado de Guardiola é anulado com veredito do caso City
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Títulos ‘cancelados’? Até onde legado de Guardiola é anulado com veredito do caso City

Há uma pergunta que, a partir de agora, vai acompanhar Pep Guardiola pelo resto da carreira: quanto do que ele construiu no Manchester City pertence a ele, e quanto foi possível porque o clube havia construído uma vantagem financeira sobre os concorrentes de maneira irregular?

O questionamento surge depois que a comissão independente responsável pelo caso das 115 acusações concluiu que o Manchester City violou as regras financeiras da Premier League em praticamente toda a extensão do processo. A liga confirmou que o clube foi considerado culpado de todas as acusações relacionadas às violações financeiras graves e da maioria das acusações relacionadas à falta de cooperação com a investigação.

O caso envolve nove temporadas, de 2009/10 a 2017/18, e a comissão concluiu que o City utilizou acordos comerciais fictícios e um sistema de financiamento disfarçado para inflar receitas e reduzir custos em mais de 900 milhões de libras. O clube nega as conclusões e pretende recorrer. O problema para Guardiola é que sua história em Manchester começa no meio dessa linha do tempo.

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O Manchester City de Guardiola era brilhante. Mas de onde veio a vantagem para construí-lo?

Pep assumiu o City em 2016, herdou uma estrutura esportiva que já havia sido construída durante anos de investimento e, em sua primeira temporada, comandou um elenco que custou centenas de milhões de euros para ser montado. A primeira Premier League conquistada em sua nova era veio em 2017/18, exatamente a última temporada abrangida pelo período financeiro investigado.

A partir daí, porém, o City continuou vencendo durante anos em que as acusações analisadas já haviam ficado para trás: ganhou o campeonato em 2018/19, 2020/21, 2021/22, 2022/23 e 2023/24, além da Champions League e da Tríplice Coroa em 2023.

É por isso que a discussão não pode ser reduzida a “Guardiola ganhou títulos roubados”. O veredito não diz isso. Mas também seria difícil sustentar que a decisão não muda nada na maneira como sua passagem pelo City deve ser contextualizada.

Pep Guardiola, técnico do Manchester City, beija a taça da Champions League após a vitória sobre a Inter de Milão na final de 2023, no Estádio Olímpico Atatürk, em Istambul.Pep Guardiola beija a taça da Champions League após a vitória sobre a Inter de Milão, em 2023. O título completou a tríplice coroa do City, meses depois de o clube ser acusado das 115 violações financeiras. (Foto: PA Images / Icon Sport)

Guardiola é um treinador extraordinário. Ele já havia provado isso no Barcelona, onde ganhou 14 títulos em quatro temporadas, e no Bayern de Munique, onde conquistou três Bundesligas consecutivas. Quando chegou ao futebol inglês, portanto, não estava começando do zero. O que aconteceu no City também não pode ser explicado apenas pelo dinheiro.

A equipe precisou aprender uma maneira completamente diferente de jogar. Guardiola transformou laterais em meio-campistas, criou estruturas de saída que influenciaram uma geração inteira de treinadores, desenvolveu jogadores em novas posições e construiu um time capaz de controlar partidas através da posse, da ocupação racional dos espaços e de uma pressão coordenada. O City de 2017/18 fez 100 pontos, venceu 32 partidas e marcou 106 gols.

Na temporada seguinte, tornou-se a primeira equipe inglesa a conquistar os quatro principais troféus domésticos na mesma temporada. Depois veio a evolução para a conquista da Champions, da Tríplice Coroa e de quatro Premier Leagues consecutivas. Essas coisas não acontecem automaticamente porque um clube tem dinheiro.

Manchester United, Chelsea, Arsenal, Liverpool e Tottenham tiveram recursos enormes em diferentes períodos. Nem todos encontraram um treinador capaz de transformar investimento em uma máquina competitiva tão consistente. Guardiola fez isso de maneira excepcional. O problema é que o dinheiro pode ter alterado as condições iniciais da competição.

Segundo a comissão, o City registrou cerca de 950 milhões de libras em receitas de patrocínios de empresas de Abu Dhabi entre 2009/10 e 2017/18, mas apenas 119,25 milhões de libras teriam sido pagos diretamente pelos patrocinadores como valor-base. Outros 830,7 milhões de libras foram identificados pela comissão como valores pagos pela Abu Dhabi United Group, empresa ligada ao proprietário do clube, dentro do chamado sistema de financiamento disfarçado.

A conclusão foi de que o mecanismo ajudou o City a apresentar uma situação financeira artificialmente mais favorável e a aparentar cumprimento das regras de gastos. Isso não transforma automaticamente cada passe de Kevin De Bruyne em consequência de uma fraude, mas muda a pergunta sobre como aquele elenco chegou a existir.

Guardiola não criou a vantagem, mas recebeu uma e a transformou em futebol

Guardiola não foi o responsável pela aquisição do Manchester City em 2008. Não foi ele quem desenhou os acordos comerciais investigados, nem quem decidiu como os balanços seriam apresentados à Premier League ou à Uefa. A comissão não concluiu que Guardiola tenha participado pessoalmente dessas irregularidades.

Ele chegou ao clube em 2016, quando o City já havia conquistado duas Premier Leagues, uma FA Cup e duas Copas da Liga sob o projeto financiado pelos novos proprietários. Mas o treinador também não chegou a um clube qualquer.

Pep Guardiola durante sua passagem pelo Manchester City (Foto: IMAGO / Pro Sports Images)Pep Guardiola durante sua passagem pelo Manchester City (Foto: IMAGO / Pro Sports Images)

Na temporada 2016/17, seu primeiro ano, o City gastou cerca de 216 milhões de euros em contratações. Vieram John Stones, Leroy Sané, Ilkay Gündogan, Gabriel Jesus, Claudio Bravo e outros jogadores. O investimento continuou nos anos seguintes, enquanto Guardiola recebia condições para remodelar praticamente todas as posições do elenco.

E aqui existe uma diferença fundamental entre dizer que Guardiola se beneficiou de uma vantagem estrutural e dizer que Guardiola não mereceu os títulos. A primeira afirmação é inevitável. A segunda é muito mais difícil de sustentar.

O técnico recebeu um clube com recursos extraordinários e o transformou em uma equipe extraordinária. Ele não inventou a riqueza que encontrou, mas fez algo que vários outros treinadores ricos não conseguiram fazer: criou uma identidade futebolística tão forte que passou a ser reproduzida por jogadores, categorias de base, contratações e outros clubes.

O City não ganhou seis Premier Leagues com Guardiola apenas porque podia comprar jogadores caros. Ganhou porque passou a jogar um futebol de altíssimo nível. Só que a capacidade de comprar esses jogadores também fazia parte do futebol que Guardiola recebeu. É uma relação impossível de separar.

O que seria do City sem Guardiola? E o contrário?

A temporada 2016/17, na estreia de Guardiola, terminou com o clube em terceiro lugar. Na campanha seguinte, veio o primeiro título inglês do treinador — a temporada que é justamente a última abrangida pelo período das irregularidades financeiras.

A partir de 2018/19, porém, a discussão fica mais complexa. O City venceu novamente a Premier League, mas o período investigado pelo principal bloco financeiro já havia terminado. Seria, portanto, preguiçoso colocar todos esses troféus na mesma caixa. Mas também seria simplista dizer que o problema acabou em 2018 porque as acusações acabaram ali.

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Futebol não funciona como uma planilha em que uma vantagem desaparece no dia seguinte ao fim de uma irregularidade. Um clube que constrói durante quase uma década uma estrutura de recrutamento, infraestrutura, elenco e capacidade comercial carrega essa vantagem para o futuro. Um jogador contratado em 2015 pode continuar sendo titular em 2019. Um jogador comprado em 2017 pode ser peça importante em 2022.

A vantagem financeira pode ter uma duração muito maior do que a própria irregularidade financeira.

Mas se o dinheiro explica tudo, então outros treinadores deveriam ter produzido resultados semelhantes. Manuel Pellegrini ganhou a Premier League, Roberto Mancini também, mas nenhum dos dois transformou o City na máquina que Guardiola construiu. O catalão chegou a um clube que já era rico, mas levou o projeto a um nível completamente diferente.

A partir de Guardiola, o City não passou apenas a contratar jogadores melhores. Passou a identificar jogadores para funções muito específicas. João Cancelo podia ser lateral e meia. John Stones virou um defensor capaz de participar da construção como meio-campista. Rico Lewis seguiu caminho semelhante. Bernardo Silva jogou aberto, por dentro e até como lateral. Rodri tornou-se uma referência mundial na posição.

E há outro argumento ainda mais forte: Guardiola já tinha feito praticamente tudo isso antes de chegar ao City. O Barcelona de 2008/09 não tinha Abu Dhabi, nem o Bayern. A capacidade de criar equipes dominantes é anterior à chegada a Manchester. Portanto, qualquer tentativa de reduzir Guardiola a um produto do dinheiro do City ignora uma evidência importante de sua própria carreira.

Mas o argumento contrário também é forte

Ederson, Gabriel Jesus e Danilo, jogadores do Manchester City, com o troféu da Premier League após a partida contra o Huddersfield, no Etihad Stadium, em Manchester, no Reino Unido, em 6 de maio de 2018.Ederson, Gabriel Jesus e Danilo com o troféu da Premier League de 2017/18 (Foto: David Klein/Newscom World / IMAGO)

O outro lado da discussão não pode ser descartado. A pergunta que o veredito recoloca é: qual teria sido o tamanho desse legado se Guardiola tivesse recebido em Manchester as mesmas limitações financeiras de seus principais concorrentes?

Essa pergunta não tem resposta factual. Não há como criar uma realidade alternativa e observar Guardiola treinando o Tottenham de 2016, o Arsenal daquela época ou um Liverpool submetido a restrições muito diferentes.

Mas ela é legítima justamente porque a comissão concluiu que o City não estava apenas gastando muito: estava apresentando informações financeiras falsas e violando significativamente limites de gastos da Premier League e da Uefa.

Guardiola podia errar em uma contratação e tentar outra, podia substituir um jogador caro por outro ou reformular o elenco. Podia manter profundidade em posições nas quais outros clubes precisavam fazer escolhas. Essa vantagem também faz parte da história.

Um treinador pode ser brilhante e, ao mesmo tempo, trabalhar em condições privilegiadas. As duas coisas podem ser verdadeiras. E ao mesmo tempo que as as duas coisas se entrelaçam, uma não pode anular a outra.

FONTE/CRÉDITOS: Guilherme Ramos
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