Brasília – O projeto que prevê a redução da jornada de trabalho para quatro dias por semana — popularmente conhecido como o fim do regime 6×1 — virou um dos cartões de visitita do governo Lula nos discursos oficiais. Em palanques e pronunciamentos, a medida é apresentada como uma bandeira progressista e modernizadora. Mas, na prática, ela continua apenas no papel.
Protocolado em 25 de fevereiro deste ano, o texto, de autoria da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), propõe a jornada semanal de 32 horas com manutenção dos salários. Apesar do anúncio otimista feito pelo Executivo, o projeto sequer tem relator na Câmara dos Deputados — primeiro passo para iniciar a tramitação efetiva no Congresso.
Sem apoio sólido entre os parlamentares e diante das prioridades econômicas do momento, o tema perde força justamente no ambiente onde precisa ser consolidado: o Legislativo. Enquanto isso, pesquisas mostram que a população brasileira está à frente do debate político. Segundo levantamento Genial/Quaest, seis em cada dez brasileiros apoiam a redução da jornada de trabalho, tornando essa proposta uma das mais reconhecidas ligadas ao governo Lula.
O curioso é que outras medidas defendidas pelo Executivo — mas menos divulgadas publicamente — ainda são desconhecidas pela maioria da população. Entre elas, estão a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, a ampliação do Vale Gás e a isenção da conta de luz para famílias de baixa renda. Nenhuma delas, assim como o projeto do 4×0, foi aprovada até agora.
Em abril, durante evento em São Paulo, o presidente Lula afirmou que seu governo iria “aprofundar o debate sobre a redução da jornada de trabalho vigente no país, em que o trabalhador e a trabalhadora passam seis dias no serviço e têm apenas um dia de descanso”. O tom era ambicioso: “Está na hora de o Brasil dar esse passo, ouvindo todos os setores da sociedade, para permitir um equilíbrio entre a vida profissional e o bem-estar de trabalhadores e trabalhadoras”.
Mas, quase cinco meses depois, o "aprofundamento do debate" parece ter ficado restrito às palavras. Sem movimentação concreta no Congresso, o projeto enfrenta resistências de setores empresariais e falta de interesse de partidos da base aliada, que consideram a pauta pouco viável num ano eleitoral e de ajustes fiscais.
Enquanto o governo insiste em promover o projeto como símbolo de um Brasil mais justo e humano, a realidade política mostra que a jornada rumo ao fim do 6×1 ainda será longa — e talvez tão desgastante quanto o próprio regime que se quer extinguir.
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