A goleada por 4 a 1 sofrida diante do Como, nesta quarta-feira (21), pela Champions League, transformou o início de temporada do Manchester United em uma crise difícil de contornar. Com apenas duas vitórias nos primeiros 11 jogos de 2026/27, os Red Devils acumulam atuações preocupantes, falhas defensivas recorrentes e uma incapacidade alarmante de reagir quando o adversário assume o controle.
Michael Carrick, efetivado após uma reta final promissora na temporada passada, está sob pressão. Mas atribuir exclusivamente ao treinador a responsabilidade pelo momento do clube seria uma análise incompleta.
Carrick tem sua parcela de culpa, sobretudo pela organização tática deficiente, pela dificuldade de ajustar a equipe durante as partidas e pela postura apática que se repete em campo. O problema, porém, vai além das decisões tomadas à beira do gramado. A diretoria também precisa responder pelo planejamento de mercado, pelas lacunas do elenco e pela falta de continuidade que mantém o Manchester United preso a um ciclo de reconstruções interrompidas.
O treinador pode estar perto de perder o emprego, mas sua eventual saída não resolverá, por si só, as questões estruturais que alimentam a crise em Old Trafford.
Carrick erra na organização, mas o elenco também precisa responder
A derrota para o Como expôs de maneira contundente os problemas do trabalho de Carrick. Sofrer um gol de Nico Paz logo aos dois minutos já seria um sinal de alerta; fazê-lo depois de também ter sido vazado no primeiro minuto contra o Atlético de Madrid, na rodada anterior da Champions, tornou a desatenção ainda mais grave.
O United entrou para a história da competição como o primeiro clube inglês a sofrer gols nos dois primeiros minutos em partidas consecutivas. Não se trata de azar nos instantes iniciais, mas de um indício de que a equipe não consegue entrar concentrada e preparada para os desafios que encontra.
A fragilidade sem a bola é outro ponto que recai diretamente sobre o treinador. O meio-campo não consegue proteger a defesa com consistência, os espaços entre os setores aumentam e a pressão sobre os adversários perde eficiência. Contra o Como, os ingleses permitiram que os italianos encontrassem caminhos para avançar e explorassem uma retaguarda frequentemente exposta.
Na frente, faltaram criatividade, variações e mecanismos coletivos para mudar o cenário. Mesmo quando precisava buscar uma reação, o United parecia limitado a iniciativas individuais, sem uma estrutura capaz de sustentar uma resposta.
Há, portanto, motivos para questionar Carrick. O bom desempenho na reta final de 2025/26, quando assumiu interinamente após a saída de Ruben Amorim e conduziu a equipe à classificação para a Champions, criou expectativas que ainda não se concretizaram.
O desafio de um trabalho permanente, contudo, exige mais do que recuperar momentaneamente a confiança do grupo: é preciso estabelecer padrões de jogo, corrigir problemas recorrentes e encontrar alternativas diante de adversários que exploram as mesmas fragilidades. Até aqui, o treinador não demonstrou ter respostas suficientes. As lesões ajudam a explicar parte das dificuldades, mas não justificam a desorganização generalizada apresentada neste início de 2026/27.
A responsabilidade dos jogadores também não pode ser ignorada. A falta de intensidade nos duelos, os erros de posicionamento e a incapacidade de manter a concentração comprometem qualquer plano de jogo. Um time pode ter limitações técnicas ou sofrer com desfalques, mas ainda precisa demonstrar disciplina e competitividade. O United, em diferentes momentos, pareceu aceitar a superioridade do Como sem conseguir reagir.
Nem toda falha individual é culpa do treinador, assim como nem todo problema coletivo pode ser atribuído à falta de qualidade do elenco. Carrick precisa organizar melhor seus jogadores, mas os atletas também precisam executar suas funções com responsabilidade.
Diretoria mantém United preso ao mesmo ciclo de erros
Se Carrick responde pelo que acontece em campo, a direção do Manchester United precisa explicar como o clube chegou a mais uma temporada com desequilíbrios tão evidentes. A janela de transferências reforçou o meio-campo com Andrey Santos, Carlos Baleba e Youri Tielemans, mas a concentração de investimentos nesse setor não eliminou carências importantes em outras áreas, especialmente na defesa.
Contratar jogadores de qualidade não basta quando as prioridades do elenco não são atendidas de maneira equilibrada. O resultado é uma equipe que pode ter mais opções em determinadas posições, mas continua vulnerável justamente onde precisa de maior segurança.
O desabafo de Lisandro Martínez, após a derrota por 2 a 0 para o Atlético de Madrid, tornou pública uma insatisfação que ultrapassa a discussão sobre o treinador. O zagueiro questionou as constantes mudanças no comando técnico, cobrou mais investimento e direcionou parte de suas críticas ao diretor de futebol Jason Wilcox. Ao mesmo tempo, reconheceu que os jogadores também precisavam fazer mais.
A declaração é relevante porque expõe duas dimensões do problema: a percepção de que a direção não oferece todas as condições necessárias para competir e a consciência de que o desempenho dentro de campo está aquém do esperado. Posteriormente, Martínez pediu desculpas pelas críticas, e o clube aceitou o gesto, mas o episódio não eliminou as dúvidas sobre o planejamento.
É nesse ponto que a diretoria aparece como a principal responsável pelo cenário mais amplo. A instabilidade não começou com Carrick, tampouco desaparecerá necessariamente com sua saída.
Desde o fim da era de Sir Alex Ferguson, o United alterna mudanças de técnico, períodos de recuperação e novas quedas de rendimento. Uma troca no comando pode produzir uma reação imediata, mas, sem uma estrutura esportiva coerente, o efeito tende a ser limitado. A sucessão de projetos que não conseguem se consolidar sugere que o problema está também na maneira como o clube define prioridades, monta seus elencos e sustenta suas decisões ao longo do tempo.
Carrick, naturalmente, não está isento de responsabilidade. Se continuar sem corrigir a postura defensiva, a falta de compactação e a pobreza das soluções ofensivas, sua permanência será cada vez mais difícil de justificar. Mas demiti-lo sem rever os erros de planejamento significaria repetir uma fórmula que já se mostrou incapaz de garantir estabilidade.
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