São Paulo / Nova York – Em meio a um cenário de alta volatilidade nos mercados financeiros, crise de confiança nas instituições centrais e tensões geopolíticas crescentes, os preços do ouro e da prata atingiram máximas históricas nesta semana. O metal dourado superou a marca de US$ 2.450 por onça-troy, enquanto a prata ultrapassou US$ 32 por onça, segundo dados da Bloomberg e do Kitco Metals.
A valorização expressiva dos metais preciosos reflete a busca global por ativos seguros (safe havens) diante da percepção de risco elevado em ativos tradicionais, como ações, títulos soberanos e até moedas fiduciárias. Um dos principais fatores por trás desse movimento é a pressão política sem precedentes sobre o Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos.
Fed sob fogo cruzado
Nos últimos meses, o presidente norte-americano Donald Trump Jr. — eleito em 2024 e empossado em janeiro de 2025 — tem feito críticas públicas constantes à política monetária do Fed, acusando seu presidente, Jerome Powell, de “sabotar a economia” ao manter juros elevados por “motivações políticas”. Essa ofensiva renovou o debate sobre a independência dos bancos centrais, gerando incerteza entre investidores institucionais.
“Quando o Fed vira alvo de ataques políticos diretos, a credibilidade da política monetária entra em xeque. Isso mina a confiança no dólar e empurra o capital para ativos tangíveis, como ouro”, explica Carolina Mendes, economista-chefe da XP Investimentos.
Além disso, sinais de desaceleração econômica nos EUA, inflação persistente e déficits fiscais recordes ampliam o temor de uma possível recessão técnica ainda em 2026.
Guerra, dívida e desconfiança
Outros fatores contribuem para o rali dos metais:
- Conflitos prolongados no Leste Europeu e no Oriente Médio;
- Expansão da dívida pública global, que já ultrapassa US$ 310 trilhões;
- Diversificação de reservas internacionais por países emergentes, como China, Rússia e Índia, que têm aumentado suas reservas em ouro;
- Adoção de criptoativos lastreados em ouro por fundos de investimento conservadores.
O Banco Central da Rússia anunciou na semana passada a compra de mais 50 toneladas de ouro, reforçando sua estratégia de desdolarização. Enquanto isso, o Banco Popular da China mantém uma política discreta, mas contínua, de acumulação do metal precioso.
Impacto no Brasil
No mercado doméstico, o ouro negociado na B3 também bateu recorde nominal, superando R$ 780 por grama. A prata acompanhou a alta, cotada a cerca de R$ 28 por grama. Especialistas alertam, porém, que parte dessa valorização é impulsionada pela desvalorização do real frente ao dólar, que opera acima de R$ 5,50.
Apesar do apelo como proteção patrimonial, analistas recomendam cautela: “O ouro não gera renda. É um seguro, não um investimento de longo prazo por si só”, pondera Fernando Ulrich, estrategista do BTG Pactual.
E agora?
Com as eleições legislativas nos EUA se aproximando e a possibilidade de novas sanções comerciais globais, a tendência é de que a demanda por ouro e prata permaneça elevada nos próximos trimestres. Alguns bancos, como o Goldman Sachs, já projetam o ouro a US$ 2.600 até o fim de 2026.
Enquanto governos e bancos centrais lutam para restaurar a estabilidade, o velho ditado volta a ganhar força: “Em tempos de crise, o ouro nunca falha.”
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